Sinfonia dos pássaros
E pulou.
Veio correndo com toda a sua graciosidade, e pulou.
Do alto de uma manhã em que se pensava que todos estivessem bem. Se lembrou da fé.
A fé de existir, dela e de cada grão de areia, de cada gota de chuva, de cada floco de neve. Que cai.
E tentou se lembrar das primeiras vezes em que flexionou vários e vários verbos concomitantemente, pois que isso consiste na tarefa de existir, flexionar verbos, realizar ações. A cabeça refuta a imagem de nosso próprio nascimento, mas neste momento o azul escuro do inconsciente (feito céu noturno) atirou o reflexo desta galáxia interna violenta e fulgurosa para toda a rede neural, fazendo pulsar um pouquinho mais forte e rápido o coração. De um jeito que faz ficar mais difícil ainda respirar.
As mais distantes e óbvias reminiscências da infância - chafariz da juventude - tão ingênua, quando o sol brilhava de outro jeito nas paredes da sala da casa dos pais, o riso e os sorrisos, essa flor que foi morrendo, se perdendo através da passagem do tempo. De pouco em pouco foi se permitindo ser ceifada e anulou-se.
Tornou-se nula, para um dia nunca mais voltar em pouco mais de um minuto de queda. Queda livre, para sempre.
Augusto K.