sexta-feira, 4 de julho de 2014

 Em cada um de nós existem
grandes sacros templos.
Edificados no passado,
cada um deles foi escavado a mão, com muito esmero
por advérbios, corações, adjetivos, substantivos,
músicas, pessoas cheias de exclamações e lagos de muito pranto

 A entrada só é permitida para contemplação,
e chega sempre como um devaneio suspeito
 - as chaves dessas grutas.
As orações são balsamo para lavar as vistas
em miragens feitas por la mano de Dalí,
um sol feito Miró

A caminhada é sempre recomendada
aos que desejam peregrinar 
nos recônditos segredos do Universo,
aos que desejam a chama das estrelas nas mãos.

Augusto K.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

I. Lira dos dias
               (Dedicado ao meu grande amigo Diego Sousa)

Nos plácidos fins de tarde,
pores de sol,
navega uma balsa
no rio d'uma lírica distante,
também onipresente,
soprada na força volátil do ar,
onde tu sempre estás intrínseco, meu caro amigo.
De tantas eras este mundo já se alimentou
e cá estamos nós desta vez.
Pisamos o mesmo chão
e me é motivo de loucura rouca, alegria:
partilhar tua existência em olhos agora rasos d'água,
como o vento no Japão,
em melodias orientais.
Cristo, Krishna,
Deus nosso Senhor,
apaga a solidão das rotinas,
e a ânsia desmesurada acesa nos abismos
colossais alimentados pelos astros
sem respostas plausíveis o suficiente
para o contentamento que talvez
seria inconsistente também.
Pois que fractais são factos vivos no mundo,
na pele, nos olhos, nos sons,
em todos os sentidos
e nada vale.
Mas meu amigo, que é a vida senão "por quê"?
Augusto K.

terça-feira, 3 de junho de 2014

II.
Lira dos dias
Todo dia já é tarde
pois que todo coração palpita
com o vento saciado dos mares,
na maresia fatigada dos limbos
que buscam amparo,
que há tanto já habitam
nas rugas do rosto.
- Solidão.
Decrepitude, casa das eras,
eco das gargantas - âmago do mundo,
ou será o grito das auroras fustigadas,
as primeiras manhãs?
Uma canção não morre,
num Sol de pontas cristalinas, dissonantes
que apontam sempre oeste
remoto, entrelaçado distante
- Bate asas firme,
e a cada pulso - pulso triste,
anseia por não ser alcançado;
muito menos lembrado,
na memória no canto dos pássaros,
ou nas pétalas jogadas aos sonhos dos rios - cânforas e jasmins.
Durma distante
num quarto em mim, Oriente,
beija a tentação da morte,
pois que tua fronte permeia um manto, Senhor,
para toda a Estrela da Manhã.
Augusto K.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Como seguimos bravamente às manhãs,
todos os dias?
Mal sabem os rochedos negros,
as ondas que chicoteiam a praia,
das catedrais entre teus dentes
fragrância dos risos
Gregos navios pagarão
por nossos destinos,
por cantarem posteridade.

Augusto K.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sinfonia dos pássaros

 E pulou.
 Veio correndo com toda a sua graciosidade, e pulou.
 Do alto de uma manhã em que se pensava que todos estivessem bem. Se lembrou da fé.
 A fé de existir, dela e de cada grão de areia, de cada gota de chuva, de cada floco de neve. Que cai.
 E tentou se lembrar das primeiras vezes em que flexionou vários e vários verbos concomitantemente, pois que isso consiste na tarefa de existir, flexionar verbos, realizar ações. A cabeça refuta a imagem de nosso próprio nascimento, mas neste momento o azul escuro do inconsciente (feito céu noturno) atirou o reflexo desta galáxia interna violenta e fulgurosa para toda a rede neural, fazendo pulsar um pouquinho mais forte e rápido o coração. De um jeito que faz ficar mais difícil ainda respirar.
  As mais distantes e óbvias reminiscências da infância - chafariz da juventude - tão ingênua, quando o sol brilhava de outro jeito nas paredes da sala da casa dos pais, o riso e os sorrisos, essa flor que foi morrendo, se perdendo através da passagem do tempo. De pouco em pouco foi se permitindo ser ceifada e anulou-se.
 Tornou-se nula, para um dia nunca mais voltar em pouco mais de um minuto de queda. Queda livre, para sempre.

Augusto K.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Dedicatória
(do início de Fausto, por Goethe)

Rodeais-me de novo, aéreos vultos,
Que à turva vista outrora vos mostrastes.
Tentarei, desta vez aqui reter-vos?
E a tal ilusão inda propenso
Será meu coração? Aproximai-vos!
Pois bem, reinai potentes, ressurgidos
Da vaporosa névoa do passado;
Mágico sopro que esvoaça em torno
De vós, memórias no meu peito acorda
Da juventude e seu sentir ardente.

Trazeis convosco de bem doces dias
A saudosa lembrança. Sombras caras
Ressurgem numerosas; qual remota
Tradição esquecida vão volvendo
Primeiro amor, antigas amizades;
A memória cruel com dor recorda
A marcha errante que seguiu a vida,
E nobre peitos lembra, que, frustrados
Pela sorte de dias deleitosos,
Antes de mim a vida terminaram.
Aqueles para quem cantei primeiro;
Dispersa jaz essa falange amiga,
E mudos, ai!, os ecos despertados
Nesse tempo feliz. Minhas endeixas
Por entre turba incógnita ressoam,
De quem o louvor mesmo me entristece;
Espalhados, errantes são no mundo
Os que meu canto amavam inda vivem.

Saudade, a que já estava desafeito,
Daqueles nobres, plácidos espíritos,
De mim se apossa, e qual eólia lira
Só tristes cantos o meu estro entoa;
Estremeço, de lágrimas banhado
Comovido se sente o peito austero;
Como que foge o que possuo agora,
Em presente o passado eis se converte.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Feito mar distante e intenso
    é grave o ar da noite 

por debaixo dos mangueirais 

Longe, longe
               onde acaba o capim rasteiro
relampejam 
           raios 
                 seresteiros
procissão nos céus

Longe, longe
             
                         onde nada mais tem nome

vou amarrar a rede

e descansar.

Augusto K.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Lírio 
                                             Para os fins.                                  

Cabelos ao vento
fios de lã
céu que brilha outono
no espaço fosco dos cantos
e de pés na praia
arrebata-me o furacão

Augusto K.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Léo 

Síria devastada
pergaminho, caneta, fuzil
Rosa preta
Fuzil e retalho
na sarjeta da tarja preta
suor in periferia vil
Gueixa enfeitada 
de luz do luar
na esquina d'luz vermelha
Teu preço é alto, reclama o céu
tua ambição também é alta - trama de Babel 
Prostituta mãe de todas 
as carnes das nações
beijam aves estes véus rubros por sobre o horizonte
do Oriente, do Middle East
Cabe mais dinheiro na tua vida?
Na cantiga de ladrão?
É o destino dessa terra, 
castigo para terras negras.
Pássaro engaiolado.
Mais um sabiá cantando a meia noite nos escuros dos bancos
tormento sem brando, a desgraça nas ruas do teu país...
Mais um sabiá cantando a meia noite nos sussurros pálido cinza em branco do teu coração...
... e a vida é menina que não tem medo de errar o passo do canto no meio da noite.
É muito sangue derramado no Éden,
no verão do Mundo.

Augusto K.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

 Se quedou sobre o umbral da porta, descansando a vista naqueles olhos que lhe miravam com muita atenção. Escondeu toda a mágoa e dor da partida por trás dos óculos escuros, o medo de provável arrependimento no vazio iluminado do coração que poderia talvez lhe perseguir por toda a eternidade.
 Mas ele muito bem sabia que naquele momento os céus tinham lhe prometido que era hora e que pelo fato de ser necessário para o Universo, estaria seguro frente a qualquer instabilidade.
 Os arcanjos estavam a cantar o silêncio de quedas imensuráveis dentro dele e seu coração batia sensível às ampulhetas do tempo ainda com receio de dar o primeiro passo em direção ao itinerário previsto para o vácuo espaçoso entre as pegadas das constelações.
 Fixou firme e forte aquela pessoa à sua frente e pediu:
 - Me ame como um filho, mesmo que não saiba como, mesmo que rasgadas e queimadas estejam agora as suas lembranças a meu respeito, me ame. Pois de mim tu saíste, como eu também de ti vim à este plano ainda muito perturbado pela miséria das criaturas filhas do amor que não ainda não o compreendem. Já se extenuou a hora matutina e a mais fulgurosa beleza translúcida, a nona hora se vai também, as catedrais siderais badalam intensamente dentro de minh'alma. Não te desanimes, que enquanto me vou de encontro ao Eterno para ser mais uma candeia viva n'outro sistema tu há de ser também uma chama intensa e serena como o teu astro amigo de todos os dias e alegrias. Me ame como pai, pois te concebi espaço para se criar em minha vida e na vastidão do consciente e no inconsciente do que ainda hei de ser, assim como o jardineiro que busca por espaço no jardim para plantar mais uma flor. Sou teu ramo de odes e pensamentos que ante o céu se esparge. Me ame e não te demores, que pesar carregam todas as horas abandonadas. Me ame nas vistas cegas de temporais, no olfato das asas do vento que corre livre, como aquela que te concebeu também, como tua própria mãe. O ventre de tuas mais abençoadas mães te abençoa, no calor dos abraços amorosos dos budas, da estrela da manhã cravada em tua fronte. Que te bendiga o Universo.
 Todo o planeta se tomou de sombra, os mares se revoltaram em bilhões de açoites devastando a humanidade dentro de seus próprios buracos negros. Muitos andaram perdidos pelo deserto sem conseguir enxergar a lírica dos pássaros. Poucos ainda conseguem guardar a melodia daqueles dias.
 E como é difícil um provável último Adeus.

Augusto K.