Se quedou sobre o umbral da porta, descansando a vista naqueles olhos que lhe miravam com muita atenção. Escondeu toda a mágoa e dor da partida por trás dos óculos escuros, o medo de provável arrependimento no vazio iluminado do coração que poderia talvez lhe perseguir por toda a eternidade.
Mas ele muito bem sabia que naquele momento os céus tinham lhe prometido que era hora e que pelo fato de ser necessário para o Universo, estaria seguro frente a qualquer instabilidade.
Os arcanjos estavam a cantar o silêncio de quedas imensuráveis dentro dele e seu coração batia sensível às ampulhetas do tempo ainda com receio de dar o primeiro passo em direção ao itinerário previsto para o vácuo espaçoso entre as pegadas das constelações.
Fixou firme e forte aquela pessoa à sua frente e pediu:
- Me ame como um filho, mesmo que não saiba como, mesmo que rasgadas e queimadas estejam agora as suas lembranças a meu respeito, me ame. Pois de mim tu saíste, como eu também de ti vim à este plano ainda muito perturbado pela miséria das criaturas filhas do amor que não ainda não o compreendem. Já se extenuou a hora matutina e a mais fulgurosa beleza translúcida, a nona hora se vai também, as catedrais siderais badalam intensamente dentro de minh'alma. Não te desanimes, que enquanto me vou de encontro ao Eterno para ser mais uma candeia viva n'outro sistema tu há de ser também uma chama intensa e serena como o teu astro amigo de todos os dias e alegrias. Me ame como pai, pois te concebi espaço para se criar em minha vida e na vastidão do consciente e no inconsciente do que ainda hei de ser, assim como o jardineiro que busca por espaço no jardim para plantar mais uma flor. Sou teu ramo de odes e pensamentos que ante o céu se esparge. Me ame e não te demores, que pesar carregam todas as horas abandonadas. Me ame nas vistas cegas de temporais, no olfato das asas do vento que corre livre, como aquela que te concebeu também, como tua própria mãe. O ventre de tuas mais abençoadas mães te abençoa, no calor dos abraços amorosos dos budas, da estrela da manhã cravada em tua fronte. Que te bendiga o Universo.
Todo o planeta se tomou de sombra, os mares se revoltaram em bilhões de açoites devastando a humanidade dentro de seus próprios buracos negros. Muitos andaram perdidos pelo deserto sem conseguir enxergar a lírica dos pássaros. Poucos ainda conseguem guardar a melodia daqueles dias.
E como é difícil um provável último Adeus.
Augusto K.
Poesia e crise psíquica:
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