Dedicatória
(do início de Fausto, por Goethe)
Rodeais-me de novo, aéreos vultos,
Que à turva vista outrora vos mostrastes.
Tentarei, desta vez aqui reter-vos?
E a tal ilusão inda propenso
Será meu coração? Aproximai-vos!
Pois bem, reinai potentes, ressurgidos
Da vaporosa névoa do passado;
Mágico sopro que esvoaça em torno
De vós, memórias no meu peito acorda
Da juventude e seu sentir ardente.
Trazeis convosco de bem doces dias
A saudosa lembrança. Sombras caras
Ressurgem numerosas; qual remota
Tradição esquecida vão volvendo
Primeiro amor, antigas amizades;
A memória cruel com dor recorda
A marcha errante que seguiu a vida,
E nobre peitos lembra, que, frustrados
Pela sorte de dias deleitosos,
Antes de mim a vida terminaram.
Aqueles para quem cantei primeiro;
Dispersa jaz essa falange amiga,
E mudos, ai!, os ecos despertados
Nesse tempo feliz. Minhas endeixas
Por entre turba incógnita ressoam,
De quem o louvor mesmo me entristece;
Espalhados, errantes são no mundo
Os que meu canto amavam inda vivem.
Saudade, a que já estava desafeito,
Daqueles nobres, plácidos espíritos,
De mim se apossa, e qual eólia lira
Só tristes cantos o meu estro entoa;
Estremeço, de lágrimas banhado
Comovido se sente o peito austero;
Como que foge o que possuo agora,
Em presente o passado eis se converte.
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